Jogo do Xaxado: como o CSA transformou um clássico na maior goleada cultural de Alagoas
- Fernando Antônio

- há 2 dias
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Da fundação do Centro Sportivo Alagoano ao épico tri-acesso, passando pelo inesquecível “Jogo do Xaxado”, conheça a trajetória do clube que moldou o futebol alagoano.
Por Fernando Antônio | Sport News Radio - O site do ESPORTE

A fundação do Centro Sportivo Alagoano
Antes de encantar multidões com um futebol que parecia dança, o Centro Sportivo Alagoano (CSA) precisou construir uma identidade que atravessaria gerações. Embora o lendário Jogo do Xaxado, disputado em 16 de setembro de 1952, seja o episódio mais famoso da história azulina, ele é apenas o ápice de uma trajetória iniciada décadas antes.
O CSA surgiu em 7 de setembro de 1913, na sede da Sociedade Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio de Maceió. Um grupo de jovens desportistas liderados por Jonas de Oliveira — o grande articulador da fundação — decidiu criar a nova agremiação.
Naquele momento, o nome escolhido foi Centro Sportivo Sete de Setembro, uma homenagem direta à data da independência e de fundação do clube.
A evolução do nome: Antes de ser CSA
Pouca gente sabe, mas o nome Centro Sportivo Alagoano só surgiu cinco anos depois:
1913: Centro Sportivo Sete de Setembro
1915: Centro Sportivo Floriano Peixoto
1918 (Abril): Surge a denominação definitiva: Centro Sportivo Alagoano.
Essa mudança refletia a ambição do clube: deixar de ser apenas um grupo local para representar todo o Estado de Alagoas.
O verdadeiro significado de "União e Força"
O historiador alagoano Golbery Lessa destaca que tanto o CSA quanto o rival CRB carregam significados históricos que ultrapassam as quatro linhas.
Documentos da Associação Comercial de Maceió revelam que, em 1919, durante as discussões sobre a greve de aproximadamente três mil trabalhadores do porto, os empresários da época reconheceram o impacto social e a beleza do lema “União e Força”, adotado pelo CSA poucos meses antes. O clube já nascia profundamente conectado ao contexto social e popular de Maceió.
Um clube poliesportivo
Embora o futebol fosse o carro-chefe, o jornalista e pesquisador Lauthenay Perdigão relata que, nas primeiras décadas, o CSA era uma potência em diversas modalidades:
Boxe e Luta Greco-Romana;
Esgrima e Levantamento de Peso;
Lançamento de dardo e disco;
Competições náuticas nas águas da Lagoa Mundaú (a partir de 1917).
O Mutange: O templo sagrado do Azulão
Em 1922, após ocupar sedes provisórias, o CSA inaugurou o Estádio Gustavo Paiva, eternizado como Mutange. O templo do futebol alagoano estreou com o pé direito: vitória por 3 a 0 contra o Centro Sportivo do Peres, de Recife.
"Desde os primeiros jogos, a torcida azulina já transformava o estádio em um verdadeiro caldeirão, acompanhando os atletas muito próxima ao campo." — Lauthenay Perdigão
Grandes marcos históricos do Mutange:
A maior goleada do clássico (1932): CSA 6 x 1 CRB.
Primeiro jogo internacional de Alagoas: O Mutange recebeu o Vélez Sarsfield, da Argentina.
Primeiro confronto contra cariocas (1945): Partida contra o América-RJ.
Hoje, transformado em um moderno centro de treinamento, o CT Gustavo Paiva mudou de local mas continua sendo um dos maiores símbolos da memória e resistência azulina.
O nascimento do Clássico das Multidões e o polêmico título de 1971
A rivalidade histórica começou cedo. O primeiro triunfo oficial do CSA contra o CRB aconteceu em 8 de setembro de 1916, na antiga Praça Jonas Montenegro (atual Praça Centenário, no Farol).
Com o tempo, o confronto ganhou o status de Clássico das Multidões. O ápice dessa rivalidade ocorreu em 1969, quando as duas equipes se enfrentaram impressionantes 16 vezes na mesma temporada — um recorde absoluto.
O campeonato que durou dois anos (1971-1973)
A decisão do Campeonato Alagoano de 1971 foi parar nos tribunais. O CRB contestou a regularidade do jogador Gabriel, do São Domingos (que havia vencido o CRB e dado o título por tabela ao CSA).
A reviravolta só terminou em 1973, quando a Federação Alagoana marcou um jogo extra de desempate. Mesmo com o favoritismo do rival e a dificuldade de reunir o elenco original, o Azulão venceu a decisão em campo, confirmando o título de 1971 dois anos depois.
De Dida a Adriano Gabiru: uma fábrica de ídolos
O CSA sempre foi um celeiro de craques para o futebol mundial. Entre as lendas do passado e joias recentes, destacam-se:
Dida, Zé Galego, Tadeu, Souza (Destaque nacional e no futebol francês), Orizon, Jad Soares, Pinga, Adriano Gabiru (Autor do gol do título mundial do Inter em 2006), Tonho Lima, Oscar, Carijó, Cleiton Xavier (Ex-Palmeiras e cria do Mutange), Café, Catanha, Peu e Jacozinho.
16 de Setembro de 1952: O dia em que nasceu o Jogo do Xaxado
Se o CSA precisasse de uma única tarde para resumir sua essência técnica e cultural, essa tarde seria o aniversário do rival em 1952. O CRB organizou um amistoso para festejar, mas quem deu o show foi o Azulão: CSA 4 x 0 CRB.
Mais do que o placar elástico, foi o baile em campo que entrou para a história. Os jogadores do CSA trocavam passes rápidos, envolviam o adversário com extrema facilidade e mantinham a posse de bola.
Naquela época, o ritmo nordestino do xaxado, popularizado por Luiz Gonzaga, dominava as rádios. A torcida nas arquibancadas fez a conexão imediata: a bola parecia dançar e os jogadores pareciam bailarinos. A cada sequência de passes, o Mutange ecoava:
"Xaxado! Xaxado! Xaxado!"
Anos antes do surgimento do famoso grito de "Olé" no futebol mundial, Maceió já criava sua própria expressão de superioridade técnica, sem a intenção de humilhar, mas sim de celebrar a plasticidade do futebol arte.
O legado eterno do Azulão
A consolidação da força do Azulão no cenário nacional ganhou seu capítulo mais glorioso entre 2016 e 2018, quando o clube realizou o épico e raríssimo tri-acesso consecutivo no Campeonato Brasileiro. Foram três anos de uma ascensão meteórica que arrebatou o país: o CSA saiu da Série D em 2016 (garantindo o vice-campeonato), conquistou o inédito e histórico título de Campeão Brasileiro da Série C em 2017 e, no ano seguinte, coroou a jornada com o vice-campeonato da Série B em 2018. Essa arrancada heroica transformou o Centro Sportivo Alagoano no primeiro clube do Norte-Nordeste a conquistar o acesso da base do futebol nacional até a elite da Série A em temporadas seguidas, gravando definitivamente aquela geração de atletas e a força da torcida azulina na história das maiores façanhas do futebol brasileiro.
Reduzir a história do Centro Sportivo Alagoano a uma única goleada seria ignorar uma trajetória monumental construída desde 1913. Do lema "União e Força" ao calor do velho Mutange, o CSA conquistou o tri-acesso no Campeonato Brasileiro, sendo um patrimônio esportivo. O Jogo do Xaxado foi apenas a assinatura de um clube que aprendeu a transformar futebol em arte e identidade do povo alagoano.
Beijo, abraço, saúde, fique com Deus e até a próxima…




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