
Muito além do futebol: por que a rivalidade entre CRB e CSA define o que é ser alagoano
- 8 de jul.
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Das falésias ao mar, do pastoril aos estádios: entenda como a maior rivalidade do estado ultrapassou o futebol para se tornar patrimônio cultural.
Por Fernando Antônio | Sport News Radio - O site do ESPORTE
Em Alagoas, uma pergunta ecoa de geração em geração muito antes do apito inicial: vermelho ou azul? Essa resposta tem o poder de definir amizades, dividir mesas de bar ou restaurante e alimentar uma rivalidade centenária entre o Clube de Regatas Brasil (CRB) e o Centro Sportivo Alagoano (CSA). Mas você já parou para pensar que essa força vai muito além das quatro linhas?
Esse duelo icônico está enraizado no imaginário popular, nas manifestações folclóricas e na própria construção da identidade alagoana.

O pontapé inicial: A história antes do Clássico das Multidões
Embora o "Clássico das Multidões" concentre os holofotes, o futebol em solo alagoano começou bem antes da fundação da dupla de gigantes. O pioneiro da bola foi o Esporte Clube Penedense, criado em 3 de janeiro de 1909 — hoje um dos clubes mais antigos em atividade no Brasil. Registros históricos mostram que os moradores de Penedo já batiam uma bola desde dezembro de 1908, antecedendo a capital.
Já em Maceió, a primeira partida oficial aconteceu em 31 de março de 1909, em um cenário quase inacreditável para os padrões modernos:
Os atletas: Jogavam de botinas e meias presas por elásticos.
Os uniformes: Identificados por faixas de cetim.
A torcida: Senhoras da elite com suas sombrinhas e autoridades ilustres, como o então governador Euclides Malta.
O confronto inaugural reuniu as equipes Deodoro e Floriano, homenagens diretas aos marechais alagoanos que marcaram a Proclamação e a consolidação da República no Brasil. A novidade havia chegado ao estado trazida por estudantes de Direito e Medicina que voltavam de Salvador, Recife e São Paulo, ganhando as páginas dos jornais pelas mãos do jornalista Gilberto de Andrade, no antigo Campo da Jacutinga.
Quando o futebol imitou a cultura (e a natureza)
Com o passar do século XX, a rivalidade entre CRB e CSA ganhou proporções quase místicas. O jornalista e pesquisador Lauthenay Perdigão, na obra História do Futebol Alagoano: Arquivos Implacáveis, apontava que o clássico se fundiu perfeitamente ao simbolismo cultural do estado.
O dualismo alagoano: Nos tradicionais folguedos do Pastoril, o vermelho representa a mestra, enquanto o azul simboliza a contramestra. Essa mesma oposição de cores ecoa nas cavalhadas e em outras expressões folclóricas.
Até a geografia parece explicar a divisão: estudiosos da iconografia local apontam que o vermelho das falésias em contraste com o azul do mar criou uma assinatura visual natural, que o futebol caprichosamente herdou.
A Era de Ouro e a força do interior
A organização oficial do esporte veio em 1927 com a criação da Coligação Esportiva de Alagoas (CEA). No primeiro Campeonato Alagoano, além de CRB e CSA, clubes como Vera Cruz, Tiradentes, Barroso e Uruguai entraram na disputa. O Galo levou a melhor, batendo o Azulão por 2 a 0 na final e inaugurando a contagem de títulos. Com o tempo, a entidade evoluiu até se tornar a atual Federação Alagoana de Futebol (FAF) em 1991.
Mas engana-se quem pensa que a paixão se resume a Maceió. O interior alagoano sempre foi um celeiro de potências:
ASA de Arapiraca: Fundado em 1952, chocou o estado ao ser campeão logo em sua estreia e se consolidou nacionalmente.
Tradição viva: Clubes como CEO, CSE, Coruripe, Murici, Jaciobá e Aliança mantêm viva a chama do futebol no interior.
Formação de talentos: Mais recentemente, o extinto Corinthians Alagoano virou referência nacional na revelação de jovens craques.
Um patrimônio que corre nas veias
Mais de um século após os primeiros chutes na Jacutinga, a pergunta inicial continua mais viva do que nunca.
Independentemente de qual seja o seu lado, o futebol em Alagoas moldou uma tradição que ignora o placar final. A rivalidade entre CRB e CSA se transformou em um patrimônio afetivo, a prova viva de como um povo conseguiu transformar duas cores na mais pura expressão de pertencimento, memória e paixão.
Beijo, abraço, saúde, fique com Deus e até a próxima se Deus quiser…




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